quarta-feira, 5 de junho de 2019

DENTE-DE-LEÃO






De repente abro a minha janela e vejo, do lado de fora, um gramado verde salpicado de flores amarelas, pequenas, indefesas e vivas, e alegres. Eram como pequenos sóis  explodindo vida no chão. Depois de meses de neve, de frio e de monocromia, aquelas pepitas áureas me deixavam verdadeiramente feliz.
  
A visão foi terna e impactante. Viajei através do tempo e voltei à modesta casa mineira da rua professor João Batista Viegas, na barroca São João del Rei. Lá, as mesmas flores amarelas existiam. Minhas lembranças, no entanto, me diziam que na minha terra elas eram mais escassas: uma ou duas, grudadas nas laterais da casa, presas ao chapisco da parede. Pequenas explosões solares tentando dar cor ao cinza monocromático do cimento.

Então, comecei a pensar: independentemente de uma localização geográfica, seja aqui ou acolá, as pequenas flores amarelas de dente-de-leão eram meus sóis. Mas por que destacar logo as flores de dente-de-leão? Por que não falar das tulipas que eclodem em festa de cores durante a primavera, e que eu fotografara há alguns dias? Não seriam elas inspirações mais nobres para uma construção escrita? Seria mais interessante falar das tulipas que, na minha modesta experiência de vida, eram flores misteriosas. No entanto, meus olhos miraram as flores amarelas. Um destaque inesperado a elas, simples, e, por muitos, consideradas como ervas daninhas.

Cheguei a lamentar ao ver um vizinho passar sobre elas o cortador de gramas, dissolvendo-as em um pó inerte, na tentativa de garantir o que, para ele, era a beleza verde do gramado. Eu, particularmente, achava mais bonito aquele céu de chão verde salpicado de estrelas amarelas! Combinavam tanto com a paisagem! Eram ternas e sofisticadas ali, de onde o inverno roubara as cores. Eu não tive coragem de aparar aquelas que surgiram no meu jardim. Quero-as ali, diante da minha janela, junto do mato, junto de outras ervas, de outras flores. Parte o coração a ideia de removê-las, impedindo-as de viver para permitir o florescer daquelas que recebem a nobre definição  de flores autênticas.  

Mas que direito eu ou qualquer pessoa tem de remover a beleza simples em nome da beleza dita rara? Não são ambas belezas? Não podem se complementar? Não podem viver juntas? Não podem estabelecer vínculos de amizades? Não podem tomar um chá das cinco como vizinhas amigas? Não podem fazer juntas fofocas sobre os donos dos jardins? Não podem compartilhar o medo comum do inverno?

Talvez pensem que sejam raras! Não! Talvez inexista entre elas o conceito de raro, de belo, de valor… Devem pensar que nasceram no mesmo solo, que estão ambas enraizadas, que dependem da rega frequente, da chuva, do adubo… Flores! Por que privar uma do milagre de viver para destacar a outra? 

Talvez, no mundo das flores, não haja a noção de diferença. É possível que flores, consideradas raras, se entristeçam ao ver suas amigas, apelidadas de flores do mato, arrancadas brutalmente, despedaçadas e deixando de respirar, de viver, ficando ali, caídas, num canto dos jardins, destinadas ao lixo. 

Os homens, contrariando a natureza, deixaram-se acostumar com a dor do outro. Não se importam mais com seus semelhantes, agora tratados como ervas daninhas, que choram de fome na casa ao lado. Fatalmente, não se importarão quando essas ervas forem  retiradas de seus vasos rachados e descartadas no lixo da sociedade.  

Mas foram elas, as simples flores amarelas, que me encantaram. E elas se despedem depressa. Sem a necessidade atroz da selvageria da morte pelas mãos do homem. Assim como os humanos que também se despedem rapidamente da vida. Vida deveras efêmera e desperdiçada. Elas, as flores amarelas,  envelhecem e viram pompons algodoados, leves, decorando a ponta de caules flexíveis que balançam sob o poder do sopro do vento. Às vezes eu me sinto assim: um caule que não sabe se pende para este ou aquele lado, se quer raízes, ou se quer voo.

Talvez, conscientes da maldade humana, as flores amarelas de dente-de-leão envelheçam depressa para se tornarem leves e poderem  voar em liberdade, escondendo-se em outros jardins: nos mais escondidos, nos mais modestos, nas beiras de estradas, onde estariam livres do julgamento estético do homem. 

Aqui, descubro mais uma de minhas semelhanças com as amarelas flores: também envelheci depressa. Virei adulto ainda quando menino por aspirar ao voo da liberdade.
  
Eu, quando criança, arranquei aqueles caules  que portavam uma bola algodoada na ponta. E eu soprava… Achava bonita aquela nuvem branca planando em busca de  chão seguro. Na minha inocência infantil, aquilo não era atroz. Eu não as queria matar, não pensava na morte, mas pensava na alegria que me provocava ver aqueles flocos brancos voando. Metáfora da minha própria e tão sonhada viagem. Naquele tempo, eu não sabia que eram sementes. Eu também não sabia que um dia escreveria sobre a segregação por que passam as flores simples diante das chamadas flores raras. Eu jamais pensei que até nos jardins a desigualdade pudesse se manifestar, numa contestação infame à criação divina que nos presenteou com flores, sem as categorizar. Apenas flores! Seria o suficiente! A natureza nos deu flores e demos a elas o desprezo, a seleção que não é natural. Ganhamos a vida livre e criamos a desigualdade.

Hoje, não tenho mais a coragem da infância para arrancar os caules decorados com pompons brancos  que aguardam o sopro. Agora, torço para que o vento as sopre e as salve das pás, tesouras de jardinagem, cortadores de grama… Torço para que possam viajar em paz e encontrar locais onde se sintam seguras e possam completar seus ciclos.

Acho que desejo a elas o que desejo a mim mesmo. Conseguir criar raízes em um lugar seguro, sem medo de estar diante do meu semelhante, poder fixar-me e ser feliz onde tulipas, rosas, hortênsias, gerânios e dentes-de-leão vivam em igualdade, dividindo as gotas de chuva e vibrando, unidas, pelas sementes que, guerreiras, germinam. Talvez este mundo ideal esteja vivo na minha mente, nos meus textos, nas minhas fotos, nos livros que leio, na arte, na música… no sorriso das crianças.

Paradoxalmente, a incerteza em mim personificada, presenteia-me com a louca convicção de que eu sou uma daquelas flores amarelas de dente-de-leão.



Wagner Dias

      




2 comentários:

  1. Pequenas flores amarelas que viram pompons algodoados, leves. Simples e belo pompom que é capaz de levar sementes pelos campos. Texto tocante e excelente para refletir sobre a vida. Queremos voar e ao mesmo tempo guardar a beleza e simplicidade da infância. Sim, é possível voar e sonhar com um mundo de igualdade. Se esse mundo está dentro de nós ele existe. Incoerente? Não. Quando enxergamos a beleza das flores, mesmo as mais simples, ou de um sorriso de criança podemos acreditar ser uma dessas flores amarelas de dente-de-leão. Wagner Dias, conviver com tantas tulipas e não esquecer os pompons algodoados não é para qualquer coração. Só para uns poucos com uma incrível sensibilidade. Assim como o seu. Amei o texto! Parabéns!!! Lúcia Vasconcelos.

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    1. Lindo comentário! E nessa troca de sensível promovida pelas palavras, vamos criando nosso nicho para difundir emoções. No fundo é o que vale. Que alguém se sinta tocado por nossas palavras que retratam o que sentimos. Por isso escrevo! Um abraço! ;-)

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